Educação sexual: orientação e diálogo

Quando a orientação e diálogo constantes fazem toda a diferença na vida e saúde sexual dos indivíduos

Em um mundo marcado pela banalização sexual, alta erotização e exploração da imagem da mulher em diferentes esferas da sociedade, é preocupante a constatação da carência de ações voltadas à educação sexual de crianças e jovens, assim como do despreparo de muitos pais e professores perante o tema.

Mas por que o sexo ainda é encarado por tanta gente, de diferentes culturas, como um tabu, apesar de tanta exposição? De que maneira uma questão tão importante e inerente ao ser humano pode, ainda, ser alvo de tanto preconceito e distorções?

O retrocesso observado hoje nas diversas manifestações do comportamento sexual e na forma como o assunto é tratado tem como consequência o atual cenário de desrespeito, intolerância, incompreensão e irresponsabilidade – gravidez precoce, aborto indiscriminado, alto índice de DSTs entre jovens e adultos, machismo, disseminação da AIDS, homofobia, promiscuidade, transtornos sexuais, exploração sexual, pedofilia, prostituição, etc.

E em meio a tantos problemas, os pais ficam sem saber ao certo o que fazer, qual postura adotar diante de situações peculiares, e como imperar sobre a mídia, que, constantemente, massacra a todos com imagens e apelos sexuais dos mais diversos – explicitamente e, também, de maneira implícita e, nem por isso, menos manipuladora.

A psicóloga, terapeuta de família e sexóloga Maria de Fátima Leite Ferreira chama a atenção para a crescente ausência de valores, como a ética e a moral, na sociedade como um todo, o que seria a principal razão para os problemas enfrentados hoje no que concerne à educação sexual. “Observo que muita gente discursa sobre as novas configurações familiares como se nestas o caráter, os valores não estivessem mais inclusos. Todos podem e devem acompanhar as mudanças, manter-se atualizado sem descartar princípios básicos e fundamentais como o caráter, os valores éticos e morais, que devem prevalecer sempre.”

Maria de Fátima leite Ferreira

Educar é um processo que tem início com o nascimento, logo, a educação sexual precisa estar em comunhão com a educação fornecida pelos pais ou responsáveis, da mesma maneira que deve ser integrada nas escolas desde o princípio.

“A educação sexual tem início no nascimento da pessoa e é uma coisa que a acompanha até a morte. Desde que você nasce, a forma como sua mãe, seu pai, as pessoas mais próximas lidam com você, com o seu corpo, as demonstrações de carinho, o afeto, vão o ensinando a entrar em contato com essa liberdade. Durante toda a sua vida, você está constantemente se educando acerca da sua sexualidade”, explica Maria de Fátima.

Sendo assim, a forma como os pais lidam com a própria sexualidade e aprenderam a lidar com ela, vai fazer toda a diferença na maneira como eles vão transferi-la aos filhos. “A atitude dos pais ou responsáveis perante ações e curiosidades das crianças sobre o sexo é que farão toda a diferença. Geralmente, por volta dos 4, 5 anos de idade, elas começam a conhecer o próprio corpo, a se tocar, a mostrar curiosidade sobre o assunto, e caso sejam reprimidas de forma severa, podem ficar traumatizadas por muito tempo e encarar o sexo como algo perverso, como pecado, e ter sérios problemas na vida adulta em suas relações mais íntimas. Se o pai e a mãe encaram com naturalidade, a criança também vai achar natural e, assim, essa questão não irá aguçar tanto a sua curiosidade e ela vai vivenciar essa fase naturalmente”, esclarece a profissional.

SEXUALIDADE

Ao contrário do que muitos acreditam, o conceito de sexualidade não se refere apenas ao ato sexual e ao sistema reprodutor, trata-se de algo muito mais abrangente. A Organização Mundial da Saúde definiu-a como “uma energia que nos motiva a procurar o amor, contato, ternura, intimidade, que se integra no modo como nos sentimos, movemos, tocamos e somos tocados; é ser sensual e ao mesmo tempo sexual, ela influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações com os outros e, por isso, influencia também a nossa saúde física e mental.”

Em suma, a sexualidade engloba: a identidade sexual(masculino/feminino); os afetos e a autoestima, isto é, os sentimentos em relação a si mesmo e aos outros e também em relação a todas as mudanças do próprio corpo, etc; todas as alterações físicas e psicológicas ao longo da vida; conhecimento da anatomofisiologia do sexo feminino e masculino; higiene na puberdade; gravidez, parto, maternidade e paternidade; os métodos contraceptivos; as doenças sexualmente transmissíveis.

SEXO X RELIGIÃO

Ao se esboçar qualquer opinião sobre religião, não tem jeito, a polêmica está garantida. Contudo, cabem algumas reflexões sobre a temática em questão e sua influência na educação sexual de muitos indivíduos.

Por muito tempo, a Igreja tratou o sexo como pecado e, ainda hoje, não apenas o catolicismo, mas também outras religiões tratam o assunto com muitas reservas e esboçam conceitos que contradizem com a realidade. Ao afirmar, por exemplo, que não se deve fazer uso de preservativos, ou de qualquer outro contraceptivo, indiscutivelmente, está se colocando em risco a saúde de milhares de fieis. Além disso, os jovens fazem uso de suas referências – familiar, escolar, religiosa etc – ao tomar atitudes e adotar comportamentos.  Sendo assim, ele vai se deparar com a contradição: de um lado, a divulgação de que o uso do preservativo é a maneira mais eficaz de não se contrair DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) e AIDS, e de se evitar a gravidez indesejada; de outro lado, a afirmação de que “… não se pode resolver (o problema da AIDS) com a distribuição de preservativos… pelo contrário, a sua utilização agrava o problema”, como já declarou, por exemplo, o Papa Bento XVI, em março de 2009.

“Qualquer coisa que limite o ser humano, que tente colocá-lo dentro de uma fôrma, não é saudável. Tudo que vira uma rigidez, uma imposição, é ruim. A orientação e a prevenção são as melhores formas de se evitar a gravidez na adolescência, assim como as DSTs e a AIDS. Acredito que as crenças religiosas não devem ser confundidas com outras questões”, opina Maria de Fátima.

ESTEREÓTIPOS

Hoje, o que se vê é a massificação de estereótipos de beleza e de comportamento, que, nas entrelinhas, tem propagado o preconceito perante aqueles que, de uma forma ou de outra, não se encaixam nos atuais padrões estéticos e comportamentais, estampados em capas de revistas, outdoors publicitários, idealizados em músicas, filmes, na cultura como um todo.

“A própria mídia contribui maciçamente para o ideal de beleza, por exemplo, ao vender imagens de pessoas belas, sem nenhum defeito aparente; a saúde física tem sido muito associada à estética, a um corpo magro, sarado, quando, na verdade, a beleza é um todo, um conjunto de fatores e a graça toda está justamente na diferença, nas particularidades de cada um”, diz a psicóloga e sexóloga.

A sociedade tem se apegado demasiadamente à aparência, aos bens materiais, em detrimento dos valores mais nobres do homem como o caráter, o intelecto, a moral. É aí que a família, principalmente, deve atuar em prol da manutenção dos valores, através de muito diálogo, orientação e acompanhamento permanente na educação de seus filhos.

Quando o diálogo fica difícil e os pais sentem dificuldade em lidar com o assunto, a melhor saída é procurar ajuda profissional. Ser moderno e atualizado, não é sinônimo de permissividade.

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