O pão nosso

A história do pão é praticamente tão antiga quanto a história em si, conforme academicamente a concebemos. Afinal, quando os primeiros pães começaram a ser consumidos, há cerca de 6.000 anos, a própria Revolução Neolítica ainda estava em curso dentro da realidade de diversas povoações espalhadas pelos quatro cantos da superfície terrestre.

O domínio da agricultura e do fogo, bem como a domesticação de animais e o surgimento dos primeiros esboços de uma comunicação padronizada, tanto em desenhos quanto em fonemas, eram ainda experiências tão recentes quanto raras entre a totalidade dos habitantes da Terra. E, desde estes tempos remotos para a humanidade, o pão já alimentava parcela significativa de populações, como os egípcios, servindo também como forma de pagamento por trabalhos realizados.

As inúmeras serventias do alimento, no entanto, representam apenas a ponta visível de um iceberg muito maior. Afinal, a própria elaboração da receita, desde a obtenção da farinha e do sal até o cozimento em água e a fermentação, representa um verdadeiro marco evolutivo na trajetória da humanidade. O homem, agora estabelecido num ambiente fixo, começava a dialogar com o ambiente à sua volta, adaptando-o às suas necessidades, e não apenas fazendo o caminho inverso.

A bricolagem envolvida na aplicação de objetos naturais como ferramentas improvisadas começava a dar lugar a artefatos projetados e elaborados com finalidades específicas. O homem experimentava pela primeira vez a magia e a potência da criatividade, e materializava na complexidade do pão – um alimento composto, elaborado, e inexistente enquanto tal na natureza – o triunfo sobre o problema eterno da busca por nutrientes.

De forma bastante concreta, era pela primeira vez a mente alimentando o corpo. Uma constatação forte o bastante para tornar válida a discussão acerca do que terá de fato ocorrido: o pão nascido como filho primogênito do homem criativo; ou o próprio homem criativo ter vivido seu primeiro momento através do pão.

Distanciando-se dos instintos, o homem começava a sintetizar e produzir conhecimento. Experimentava, alterava, criava. E o pão – desde a noite dos tempos, testemunha o marco desta caminhada – não apenas dava materialidade a esta vocação criativa, como também era capaz de adaptar-se aos mais diferentes contextos, sempre conservando seu papel fundamental na alimentação de todas as gerações desde então.

Símbolo maior e mais antigo da cooperação entre o divino e o humano, o pão ganha contornos de profunda sacralidade aos olhos de boa parte da população mundial, através da vida e da mensagem pregada por Jesus Cristo, 2.000 anos atrás. Intitulando-se “o Pão da Vida”, Jesus eternizou o alimento ao citá-lo no Pai Nosso, e ao instruir que através da renovação de sua santa e derradeira ceia fosse celebrada sua memória. Além disso, foi também através da multiplicação de pães que Jesus, conforme o relato bíblico, alimentou ao menos por duas vezes grandes multidões que o seguiam.

Presente e ativo ao longo de toda a história registrada do homem sobre a Terra, o pão sobreviveu a todas as evoluções tecnológicas sem jamais ver questionada sua importância – tanto na nutrição quanto na composição da própria identidade cultural de uma espécie.

Ao longo dos milênios, inúmeras civilizações fizeram suas próprias interpretações daquela receita tão simples e perfeita, gerando uma infinidade de variações deste que é o alimento humano por excelência. Todas elas, igualmente herdeiras desta parceria que não apenas serve de suporte à história humana, mas que também, sob vários aspectos, chegou mesmo a defini-la.

E esta história continua a ser escrita a cada fornada preparada, dia após dia, desde as primeiras horas da madrugada. Não existe nada de banal, portanto, no ato de levar um pedaço de pão à boca, quando este mesmo ato talvez represente a ligação mais próxima e atual com os hábitos e rituais dos primeiros ancestrais criativos, nas bases mais profundas da civilização, e de tudo aquilo que ainda significa ser humano.

Vale a pena lembrar disso durante o próximo café da manhã.

 

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